Acharam
o piá quase morto de
frio. Estava com uma grave
pneumonia. Olhos castanhos,
murchos, fundos, tristes.
Chorava, copiosamente, de
ressentimento, talvez. E as
lágrimas em sua face
com amarelão, como
se estavam - por um anjo!
por um anjo! - de alguma estranha
forma congeladas; dando ao
seu rosto pueril a sofrência
de uma paleta de amargura
e dor terminal. O policial
Dito Lima, num fusca que mais
parecia uma imagem de garrafa
de crush itinerante, tinha
subido a rua 24 de Outubro,
ali, na altura do Clube Atlético
Fronteira, perto da hora do
inicio Missa do Galo, e vira
o menino com um vazio saco
de farinha de trigo usado
na mão direita, como
se segurasse uma roseira de
tristices. Vira, em passant,
por acaso, de vereda mesmo.
Depois, precisando atender
a um chamado do Vereador Chico
Preto para um forfé
suspeito nas imediações
da malha férrea da
Estação Sorocabana
de Itararé, passou
novamente na esquina ali pertinho,
e, de través, com o
rabo do olho captou de novo
o guri e talvez já
passasse da meia noite. Encafifou.
Será o impossível?
Um alarme divinal tocou em
seu instinto. Só por
Deus. Parou o fusca da policia
e foi ver o que estava acontecendo.
Sacou o desboque: o menino
pobrezinho ardia em febre,
murcho, trêmulo, se
não fosse socorrido
a tempo certamente que iria
morrer. Era Natal em Itararé,
Cidade Poema. Dezembro de
um tempo em que se amarrava
cachorro com lingüiça.
O piá
era filho da Dona Lena. Levava
e trazia rotineiramente as
trouxas de roupas que a mãe
lavava pra fora, precocemente
ajudando como podia em casa.
Trazia as pesadas trouxas
de roupas sujas dos ricos,
depois levava tudo de novo,
roupa limpinha, fervida em
água de bica (o chafariz
do Bairro Velho), sabão
de cinzas e anil, passada
com os vincos certinhos, e
que entregava direitinho,
trazendo os minguados tostões
pra suprir a família
grande e pobre, da carente
periferia sociedade anônima
de Itararé, pois o
pai estava doente, os irmãos
menores padecendo, por meses,
mal-e-mal e sempre uma rotineira
e rala sopa de fubá
com couve rasgada. Havia carestia
no Brasil, anos sessenta,
os clientes ricos minguando,
o já parco pagamento
dos afazeres da mãe
dedicada, entre o tanque e
o quarador, entre o fogão
de lenha e os filhos com amarelão.
A Dona Lena confiava naquele
primogênito, era o maior,
dizia até que o bendito
era abençoado por Deus.
Gastava um minuto de prece
com os outros filhos, nas
demoradas orações,
mas, com aquele seu protegido
era meia hora, precisava investir
no menino, tinha fé
nele.
Algo doente,
Dona Lena, mesmo assim batalhou
até de madrugada, fervendo
as roupas no latão
velho de óleo de algodão,
sobre uma lajota com fogo
no quintal de laranjeira pesteada.
Depois, passou a ferro que
era de brasas, com sacrifício,
mas ela contava com mais aquele
serviço, tinha planejado,
ternura de mãe. A despensa
estava vazia fazia tempo.
Sopa de fubá com couve
rasgada, polenta maleixa,
aqui e ali, banana frita,
uns ovos que mal davam prum
bolo mixuruca de banana-caturra
e olhe lá. O céu
por testemunha. Se o Dr Aderaldo
mandasse mais uma quantia
de roupa, se apressaria em
entregar depressinha o serviço,
pra ter mais uns cobres que
melhorassem a bóia
de natal, talvez desse até
para comprar algumas tubainas
de limão do Vilela,
ou mesmo algum doce de cidra
pros filhos queridos, tão
precisados. Instruiu o piá
Thiago que, entregando as
trouxas de roupas limpas,
recebesse e passasse no Seu
Vitorino, fizesse algumas
compras, deu uma listinha,
feijão-jalo, tomate,
óleo, açúcar
cristal. E também trouxesse
a nova renca de roupas sujas
pra ela poder adiantar bem
o serviço, varando
a noite preciso fosse, talvez
entregando no dia seguinte,
mesmo tendo que ferver as
roupas de madrugada, mas,
ao final do dia de natal entregaria
tudo pronto e receberia a
paga costumeira para melhorar
a bóia em casa. Coração
de mãe. Capricharia
nos torresmos, cuques, tortas
de lágrimas. Confiava
no guri. Bem instruído,
ele foi levar as pesadas trouxas,
como se carregasse o mundão
sem porteiras sobre os ombros
miúdos.
Entregou,
recebeu, viu que era pouco
o que pagavam pelo trabalho,
mas atenderia à solicitação
da querida Mãe. Mas,
quando perguntou da nova porção
de roupa suja da casa do Dr
Aderaldo, foi informado de
que não estavam mais
interessados no serviço,
contratariam empregada barata
a preço melhor e que
ainda faria tudo, depois,
estavam para entrar de férias,
iriam pra Iguape, litoral.
O menino ficou estacado. Mal
deram um chtau seco e sem
graça que fosse, fecharam
a porta da casa rica na cara
azeda dele, e Thiago ficou
ali, encostado na enorme porta
de cedro e imbuia cheirosa,
chorando suas lágrimas,
quase beijando a parede, quase
mesmo batendo de novo e pedindo
pelo amor de Deus, mais uma
leva de roupa suja, mais uma
porção de serviço,
a casa precisava, a mãe
contava com aquilo, que fizessem
uma caridade. Era Natal e
ele estava de travessado.
Sensível. Cismou. Reinou.
Não voltaria pra casa.
Não voltaria nunca
mais. Não com as mãos
vazias. Não ele. Não
daquele jeito.
Ficaria ali.
Estava mesmo com tosse de
cachorro, a mãe disse,
o peito chiara na madrugada
fria do dia anterior, um dezembro
chuvoso e friorento em Itararé.
Se morresse ali, não
daria desgosto de dizer pra
mãe que não
teria mais roupa pra lavar
daquela ultima casa freguesa,
ou que iria apertar mais a
pobreza em sua casa humilde.
Sim, ficaria ali, achariam
o corpo, dariam o dinheiro
pra mãe, ela o abençoaria,
"vá com Deus meu
curumim, vá morar no
céu, piá".
Ele não tinha coragem.
A mãe pedira. A mãe
contava com mais uma lavada
pelo menos, naqueles tempos
de carestia. Pelo menos morrendo,
no jantar daquela noite sobraria
mais da rala sopa de fubá
com couve rasgada pros irmãos,
para as adoradas irmãs,
para a mãe adorável
que andava dodói da
angina, pro pai que estava
de cama com úlcera
varicosa e assim era impedido
de trabalhar. Ali Thiago ficou
entrevado, coração
transido, alma aflita, mordido
de dor. Só por Deus.
Entardeceu, anoiteceu. Sobre
a beirada da porta da frente
da mansão do Dr Aderaldo
Martins Mello, na Rua 24 de
Outubro, um pacote de renúncias.
Foi quando o policial Dito
Lima o achou sem querer e
salvou a sua vida, pois a
morte já fora avisada
que uma alma pura de Itararé
estava para ser levada para
muito além do vale
da sombra da morte...
Na Santa Casa
de Misericórdia de
Itararé foi uma correria
danada, um forfé sem
igual, o menino coitadinho
para morrer; cobraram doações
de sangue, labutaram, uma
enfermeira conhecia a família,
foram avisar Dona Lena, o
filho achado em petição
de desconsolo estava morrendo
em frente a casa do doutor
rico, a mãe preocupada
pensava mesmo em chamar a
policia, ia dar parte na cadeia,
perguntaram então do
porque o menino que entregava
roupa não quisera mais
voltar pra casa, como ele
ainda em tratamento emergencial,
talvez entre o pesadelo e
o sonho, falara, repetira,
suando, descorçoado,
determinado, em febre-terçã,
preferindo morrer do que não
ter como ajudar a mãe
prover o lar.
O Dr. Jonas
de Alencar chorou muito depois
que o pensou com presteza,
mandou trazerem capado do
sitio e que doassem pra família
junto com farnel de milho
verde e manta de charque,
entre grãos e tulhas
de frutas como laranja-pêra,
abacate-manteiga, manga-sapatinho,
alguns lambaris salgados também.
O enfermeiro Nicanor correu
no Armazém do Vereador
Tico comprar fiado uma boa
cesta básica pra doar
como se fosse o seu abençoado
presente de natal pra família.
Todos no hospital, doadores,
serviçais, visitantes,
curiosos, gente de coração
de ouro de Itararé,
cavalheiros como os reis magos,
foram acudir aquela família
humilde em petição
de miséria. Muito além
de ouro, incenso e mirra,
há o amor, pois o amor
é a mão que
balança o berço
da humanidade, e a esperança
é a inteligência
da vida.
Nunca tiveram
um mês tão farto
naquela casa de tabuinhas,
com todos finalmente comendo
do bom e do melhor, até
que a mãe arrumou freguesia
nove e farta, o pai arrumou
emprego de acendedor de lampiões
de gás de Itararé,
o menino Thiago ficou sendo
respeitado pelos seus colegas
do primário no Grupo
Escolar Tomé Teixeira,
e quando algum piá
maroteiro de rua, com quem
joga bola de capotão
agora, de ki-chute encardido
no pé, pergunta porque
ele não quis voltar
pra casa, ele enche os olhos
de lágrimas, abaixa
a cabeça, se assunta
e não diz nada. Fica
encruado.
Não,
não se apruma numa
conversa fiada que seja. Sabe
só pra ele que dentro
do seu coração,
de alguma maneira que inventou
de inventar, sentiu uma estrela
amarela de Natal alumiando,
e ele queria aquela bendita
luz, aquele dourado celeste
de esperança, para
enfeitar a choupana humilde
de sua morada na descalça
periferia cor-de-rosa de Itararé.
Sentiu que,
talvez porque fosse Natal,
mesmo morrendo de frio, de
alguma maneira seus familiares
não morreriam de fome,
pois, algum anjo de pertinho
do Menino Jesus do presépio,
em sua fé e defesa,
operaria o que o pastor João
Vera da igreja chamaria de
um "Milagre".
Conto
da Série "Eram
os Itarareenses Astronautas?"
Por: Joaquin Setanti
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