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Entre, Pai.
Entre, Mãe. Entre,
Joaquim. Vô Zeca. Vó
Mariquinha. Tio Nunes. Rosa.
Que bom, que bom que vocês
vieram - eu estou tão
feliz. Vai ser uma noite linda.
Vai ser a noite mais bela
de todas. Vamos, sentem, ocupem
seus lugares.
E o Pretinho?
Por que o Pretinho não
veio? Você também
devia ter vindo, Pretinho.
Aí eu te pegava e te
punha no colo - você
era tão macio, tão
quentinho. Miau... miau...
Que saudades, Pretinho...
Sentem, sentem.
A senhora está tão
bonita com esse vestido, Mãe.
Vô, o senhor não
larga seu cigarrão
de palha, hem? E o senhor,
Tio Nunes, cuidado, não
vai contar aquelas piadas
bobagentas. Vó Mariquinha,
sabe que a senhora fica muito
elegante com esse coque? E
a Rosa? Sempre com esse sorriso...
Joaquim, quantos anos, hem?
Quantos anos... Muita água
passou debaixo da ponte...
E o senhor,
Pai? O senhor está
tão sério; tão
calado. Por que o senhor me
olha assim? Por que o senhor
não fala nada comigo?
Fale, Pai; fale alguma coisa.
Não fique me olhando
assim. Vocês todos,
parem de me olhar desse jeito.
Por favor. Meu Deus, meu Deus...
Tem dó de mim... Eu
não queria isso, juro
que eu não queria...
Não!
Não e não! Onde
está sua fibra, menina?
Minha fibra? Minha fibra está
aqui - ora, bolas. Pensaram
que eu fosse fraquejar? Pois
estão muito enganados.
Quem vos fala é a Aristotelina
- a Lina. Há meses
que eu venho planejando essa
noite; pensam que eu vou desistir
agora? Nunca.
Será
uma noite única. Será
uma noite sem igual. Nem todas
as luzes de todas as casas
juntas da cidade brilharão
mais do que esta casa nesta
noite de Natal. Nem todas
as luzes de todas as ruas...
Ai, Lina, você é
impagável; parece que
você nunca saiu do palco.
Não saí mesmo:
você sabe, uma vez atriz...
Joaquim, lembra
daquele Natal em que eu te
pedi uma porção
de lâmpadas - eu ia
iluminar toda a casa, ia fazer
um colar de lâmpadas
- e aí você me
trouxe... Ah, meu Deus...
Você me trouxe meia
dúzia, Joaquim, meia
dúzia de lâmpadas!
Então eu falei: o que
eu vou fazer com meia dúzia
de lâmpadas? O que eu
vou fazer? Aí você...
Você falou... Eu não
lembro... O que você
falou?... Eu não lembro...
Minha memória... Minha
cabeça...
Noite feliz,
noite feliz, o Senhor, Deus
de amor, pobrezinho, nasceu
em Belém. Não
foi fácil: cada garrafa,
um posto. Naquele maior, o
sujeito: para quê? Eu:
não é da sua
conta. Ele: se eu não
souber, eu não posso
vender. Eu, então:
é para tirar a cera
do assoalho, assoalho de tábuas,
casa antiga. Antipático.
Depois, no último posto,
o rapazinho: e aí,
vó, vai virar motorista
agora? Vou, eu vou fazer uma
viagem pro céu. Então
me leva com você, que
a coisa aqui na terra tá
braba. Mas ele foi gentil,
ele foi atencioso.
Os sinos,
eles estão batendo.
Missa da meia-noite. Onze
e quarenta e cinco. Quinze
minutos. Nunca houve ninguém
tão só. Nunca
alguém, nesse mundo,
se sentiu tão só.
Nem se eu estivesse - só
eu, só eu de gente
- nem se eu estivesse lá
num deserto de Marte ou lá
numa cratera da Lua. Se o
telefone tocasse. Se o telefone
tocasse, talvez...
Chega. É
hora. A meia-noite se aproxima.
Vamos. Noite feliz, noite
feliz, o Senhor... Uma garrafa
aqui; assim. Outra aqui...
Agora essa... Mais essa...
E essa... Pronto. Que cheiro
forte... Podia ser o cheiro
de jasmim que antigamente,
nas noites de verão,
entrava pela janela aberta
e inundava esta sala onde
todos nos reuníamos
e conversávamos e éramos
felizes...
Meia-noite.
Pego esta caixa; tiro um fósforo;
risco e... Eis! O fogo!
Luiz
Vilela |