Status: [APROVADO] — Texto revisado
Todo ano, no primeiro sábado de dezembro, a família de Clara montava a árvore de Natal.
Não importava se alguém tinha prova na segunda-feira, se o pai precisava terminar algum trabalho ou se a mãe dizia que ainda era cedo demais para começar a ouvir músicas de Natal.
Naquele sábado, ninguém marcava nada.
O pai buscava as caixas no alto do armário. A mãe reclamava que, misteriosamente, os fios de luz sempre passavam onze meses se enrolando sozinhos. E Clara ficava responsável pelos enfeites.
Havia bolas vermelhas, douradas, estrelas, pequenos sinos e um anjo que já tinha perdido metade de uma asa.
Mas naquele ano, quando o pai abriu o armário, ficou parado olhando para dentro.
— Ué... — disse Clara. — Cadê a árvore?
Ele olhou para a mãe.
A mãe olhou para ele.
E os dois fizeram aquela cara que os adultos fazem quando estão tentando decidir quem vai dar uma notícia ruim.
A árvore não estava mais lá.
Durante uma mudança de móveis alguns meses antes, ela havia sido guardada temporariamente em outro lugar. Uma infiltração estragou várias caixas — e a árvore estava entre elas.
— A gente compra outra — disse Clara imediatamente.
A mãe se abaixou perto dela.
— Este mês está um pouco apertado, filha. Vamos ter que esperar.
Clara olhou para todas aquelas caixas de enfeites espalhadas pelo chão.
Natal sem árvore?
Aquilo simplesmente não fazia sentido.
Durante alguns minutos, ninguém falou nada.
Até que Clara desapareceu pelo corredor.
Voltou arrastando uma cadeira.
— Clara, o que você está fazendo? — perguntou o pai.
— Montando a árvore.
— Com uma cadeira?
— Não. A cadeira é para alcançar uma coisa.
Em cima do armário havia um vaso alto com alguns galhos secos que a mãe usava como decoração.
Clara pegou os galhos.
Colocou-os dentro de um balde.
Olhou.
Estavam tortos.
Um apontava para a esquerda. Outro parecia querer fugir pela direita. E havia um terceiro tão fino que mal conseguia ficar em pé.
— Pronto — disse ela.
O pai tentou não rir.
— Essa é a árvore?
— Ainda não.
Clara enrolou um dos fios de luz nos galhos.
Ligou na tomada.
Metade das lâmpadas acendeu.
A outra metade, não.
A mãe cruzou os braços.
— Realmente impressionante.
— Ainda não terminei.
Clara começou a colocar os enfeites.
Mas surgiu outro problema.
Os galhos eram poucos.
Os enfeites, muitos.
Aquela árvore improvisada não conseguiria carregar nem metade do que eles tinham.
Foi então que Clara encontrou o anjo de asa quebrada.
Ela ficou olhando para ele.
Todo ano ele ficava escondido na parte de trás da árvore porque a mãe dizia que estava velho demais.
Dessa vez, Clara colocou o anjo bem na frente.
— Por que ele aí? — perguntou a mãe.
— Porque ninguém vai conseguir ver que a árvore está torta se ficar olhando para a asa dele.
A mãe começou a rir.
O pai também.
Pouco depois, a campainha tocou.
Era dona Celina, a vizinha da casa ao lado, que tinha vindo devolver uma travessa.
Quando viu a sala, ficou parada na porta.
— O que é isso?
Clara respondeu sem hesitar:
— Nossa árvore.
Dona Celina aproximou-se devagar.
— Ah.
Deu uma volta ao redor do balde.
— Interessante.
— Todo mundo está falando isso — disse Clara.
Dona Celina voltou para casa.
Alguns minutos depois, a campainha tocou novamente.
Ela segurava um pequeno passarinho de madeira.
— Meu marido fez isso no nosso primeiro Natal depois que casamos. Durante anos ficou na nossa árvore. Agora eu moro sozinha e nem monto mais.
Estendeu o passarinho para Clara.
— Acho que ele gostaria de passar o Natal com vocês.
Clara encontrou um lugar para ele.
Mais tarde, a avó chegou.
Ao descobrir o que estava acontecendo, abriu a bolsa e retirou uma estrela feita de papel.
Estava amarelada e cheia de marcas de fita adesiva.
— Sua mãe fez isso na escola quando tinha sete anos.
Clara arregalou os olhos.
— Você fez isso?
A mãe examinou a estrela.
— Eu tinha sete anos.
— Mesmo assim.
A estrela foi para a árvore.
No dia seguinte, o melhor amigo de Clara apareceu com uma rena feita de pregadores de roupa.
A rena tinha uma perna menor que as outras.
— Ela está manca — observou Clara.
— Não está, não.
Colocaram a rena sobre a mesa.
Ela caiu.
— Está um pouco — admitiu ele.
A rena também ganhou um lugar.
Durante os dias seguintes, algo estranho aconteceu.
Quem entrava naquela casa e conhecia a história da árvore acabava querendo acrescentar alguma coisa.
O tio trouxe uma bolinha antiga do time para o qual torcia.
A prima fez um floco de neve de papel.
O pai pendurou um chaveiro de uma viagem que a família nunca esquecia.
A mãe encontrou uma pequena fotografia dos três e colocou dentro de uma moldura feita com papelão.
Até Clara criou seu próprio enfeite: escreveu num pedaço de papel o nome de todos que haviam colocado alguma coisa na árvore, enrolou como um pequeno pergaminho e amarrou com uma fita.
Na véspera de Natal, os galhos já quase não apareciam.
Nada combinava com nada.
Havia madeira ao lado de plástico.
Fotografia ao lado de pregador.
Uma estrela velha ao lado de uma bola de futebol.
Uma rena manca.
Um anjo com meia asa.
E um fio de luz que continuava acendendo apenas pela metade.
Naquela noite, Clara ficou diante da árvore enquanto a família terminava de preparar a ceia.
O pai parou ao seu lado.
— Sabe que amanhã podemos procurar uma árvore nova em promoção.
Clara continuou olhando para os galhos.
— Pra quê?
— Para o ano que vem.
Ela apontou para o passarinho.
— Esse era do marido da dona Celina.
Depois para a estrela.
— Essa a mamãe fez quando tinha sete anos.
Apontou para a rena.
— Essa é manca.
— Essa informação é essencial?
— Muito.
Depois mostrou a fotografia, o chaveiro, o anjo e cada um dos outros enfeites.
O pai ficou em silêncio.
Clara também.
Foi quando percebeu uma coisa que nunca havia percebido nas árvores dos outros anos.
Antes, ela sabia onde cada enfeite ficava.
Naquele ano, sabia de onde cada um tinha vindo.
A mãe apareceu atrás deles.
— Continua achando que precisamos comprar outra árvore?
O pai pensou.
— Acho que precisamos comprar um balde melhor.
Clara sorriu.
Na manhã seguinte, havia presentes ao redor daquela estranha árvore.
Mas, pela primeira vez, Clara demorou um pouco para abri-los.
Primeiro ficou olhando para os galhos tortos.
Para todas aquelas coisas que não combinavam.
E para todas aquelas pessoas que combinavam.
No Natal seguinte, a família comprou uma árvore nova.
Grande.
Verde.
Cheia de galhos.
Quando o pai abriu as caixas de enfeites, Clara começou a procurar alguma coisa.
Encontrou o anjo de asa quebrada.
Depois a estrela de papel.
A rena manca.
O passarinho de madeira.
A fotografia.
E o pequeno pergaminho.
— Esses vão na frente — disse ela.
— Todos? — perguntou a mãe.
— Todos.
E assim foi.
Ano após ano.
A árvore mudava.
Novos enfeites chegavam.
Alguns quebravam.
Outros envelheciam.
Mas aqueles nunca deixaram de aparecer.
Porque Clara havia descoberto naquele Natal que a árvore mais linda do mundo não precisava ser a mais alta, a mais iluminada ou a mais perfeita.
Precisava apenas ter histórias suficientes para que alguém quisesse montá-la outra vez.

