HISTÓRIAS DE NATALO FANTÁSTICO MUNDO

O Segredo das Montanhas

Aventura, descoberta, curiosidade e memória.

Imagem oficial da história O Segredo das Montanhas

Noah encontrou a primeira estrela numa terça-feira.

Ela estava gravada numa pedra.

Pequena.

Quase apagada.

E completamente fora do caminho.

Ele passou a luva sobre a superfície para retirar a neve.

Cinco pontas.

Um círculo ao redor.

E três riscos embaixo.

Noah se abaixou.

— Estranho.

— O quê?

Lili estava alguns metros atrás.

Ou pelo menos deveria estar.

Noah virou.

— Lili?

Nenhuma resposta.

— LILI!

— Oi!

A voz veio de cima.

Noah ergueu a cabeça.

Lili estava sentada sobre uma pedra enorme.

— O que você está fazendo aí?

— Achei uma pedra.

— Nós estamos numa montanha.

— Mas essa é boa de sentar.

— Desce.

— Por quê?

— Porque eu encontrei uma coisa.

Lili escorregou pela lateral da pedra.

Chegou perto.

Olhou para a marca.

— É uma estrela.

— Eu sei.

— Então você não precisava de mim.

— Eu não chamei você para descobrir o que era.

Lili se abaixou.

— Tem três risquinhos.

— Eu vi.

— Um é torto.

— Também vi.

— Parece um bigode.

Noah respirou fundo.

— Não parece um bigode.

Lili inclinou a cabeça.

— Agora parece.

Noah decidiu continuar sozinho.

Eles estavam numa das trilhas das montanhas próximas à Vila.

Não era uma expedição importante.

Não havia missão.

Não havia ninguém desaparecido.

Noah simplesmente gostava de explorar.

E Lili tinha perguntado para onde ele estava indo.

Noah tinha respondido:

— Dar uma volta.

O erro foi não perceber que, para Lili, aquilo significava um convite.

Agora os dois estavam diante de uma estrela gravada numa pedra que Noah tinha certeza de nunca ter visto.

— Deve ser uma marca antiga de trilha — disse ele.

— Então tem outra.

Noah virou.

— Como você sabe?

— Porque uma marca sozinha não marca nada.

Noah olhou para Lili.

Depois para a estrela.

— Isso...

Ele apontou para ela.

— ...faz sentido.

Lili sorriu.

— Eu sei.

— Não se acostuma.

Começaram a procurar.

Noah examinava pedras próximas ao caminho.

Lili examinava tudo.

Pedras.

Árvores.

Galhos.

Buracos.

Uma pinha.

Outra pinha.

Uma pedra que parecia um nariz.

Um pedaço de gelo que parecia uma colher.

— Lili.

— Hum?

— Estamos procurando estrelas.

— Eu sei.

— Então por que você está olhando uma pinha?

— Porque ela estava aqui.

— E?

— Agora está ali.

Lili colocou a pinha sobre outra pedra.

Noah fechou os olhos por um segundo.

— Vamos continuar.

Andaram mais alguns minutos.

Nada.

Noah começou a achar que estava errado.

Talvez aquela estrela não significasse coisa alguma.

Então Lili gritou:

— Achei!

Noah correu.

— Outra estrela?

— Não.

Ela apontou para o chão.

— Pegadas.

— De quê?

— Não sei.

— Então por que...

— Mas olha.

As pegadas atravessavam a neve e desapareciam entre duas pedras.

Noah se aproximou.

Foi então que viu.

Na pedra da direita:

uma estrela.

Cinco pontas.

Um círculo.

Três riscos.

Um deles torto.

Noah sorriu.

— Segunda.

Lili olhou.

— Essa também tem bigode.

A segunda marca levou à terceira.

A terceira, à quarta.

Mas havia um problema.

Elas estavam se afastando da trilha.

Noah parou.

À frente, o terreno subia em direção a uma parte mais fechada das montanhas.

— A gente não deveria continuar.

Lili olhou para ele.

— Por quê?

— Porque estamos saindo da rota.

— Você não gosta de sair da rota?

— Gosto.

— Então?

— Gostar não significa fazer sem pensar.

Lili olhou para a montanha.

— Podemos pensar e depois fazer?

Noah quase riu.

— Podemos.

Ele observou o céu.

Ainda havia bastante luz.

O tempo estava estável.

Sabiam exatamente como retornar.

Noah marcou o ponto onde estavam.

— Só até a próxima estrela.

— Quantas vezes você vai dizer isso?

— Uma.

Lili levantou uma sobrancelha.

— Tá.

A próxima estrela demorou mais.

Estava escondida atrás de uma pequena parede de pedra.

Depois encontraram outra.

E outra.

As marcas pareciam contornar a montanha.

Até que desapareceram.

— Acabou — disse Lili.

— Não.

— Não tem mais.

— Então estamos procurando errado.

Noah voltou até a última marca.

Examinou a direção.

O símbolo estava diferente.

A estrela continuava igual.

O círculo também.

Mas os três riscos não estavam embaixo.

Estavam ao lado.

— Mudou.

Lili se aproximou.

— O bigode virou.

— Para de chamar de bigode.

Noah passou o dedo pelos riscos.

Depois olhou na direção para a qual apontavam.

Havia apenas uma parede de pedra.

— Não faz sentido.

Lili foi até a parede.

— Talvez faça.

— É uma parede.

— Eu sei.

Ela colocou o rosto quase encostado na pedra.

— O que você está fazendo?

— Olhando.

— Eu também estou olhando.

— Não desse lado.

— Que lado?

Lili desapareceu.

Noah congelou.

— Lili?

— Aqui!

— Onde?

Uma mão apareceu atrás de uma saliência.

Noah correu.

Havia uma passagem estreita entre duas grandes rochas.

Da posição onde estavam, parecia apenas uma parede.

— Você entrou aí?

— Só um pouquinho.

— Lili!

— Eu ainda estou aqui.

Noah passou pela abertura.

Do outro lado havia um corredor natural entre as pedras.

E, no final dele, uma última estrela.

A passagem terminava numa pequena abertura na montanha.

Não era exatamente uma caverna.

Parecia mais uma fenda protegida do vento.

Noah entrou primeiro.

Lili atrás.

A luz do lado de fora iluminava parcialmente as paredes.

Noah parou.

— Uau.

Lili ficou quieta.

O que, para Noah, era ainda mais impressionante.

As paredes estavam cobertas de marcas.

Não estrelas.

Nomes.

Datas.

Pequenos desenhos.

Frases curtas.

Algumas eram recentes.

Outras tão antigas que quase tinham desaparecido.

Noah se aproximou.

Havia desenhos de árvores.

Renas.

Casas.

Brinquedos.

Um trenó.

Um par de botas.

Uma caneca.

Um boneco torto.

E dezenas de nomes.

— Quem fez isso? — perguntou Lili.

Noah não sabia.

Então percebeu uma pequena caixa de madeira encaixada entre duas pedras.

Ele a retirou.

Estava velha.

Muito velha.

Lili se aproximou imediatamente.

— Abre.

— Espera.

— Por quê?

— Porque a gente não sabe o que tem dentro.

— É por isso que tem que abrir.

Noah olhou para ela.

— Essa frase explica muita coisa sobre você.

A tampa abriu com dificuldade.

Dentro havia pequenos pedaços de madeira.

Cada um tinha alguma coisa escrita.

Noah pegou um.

“Aprendi a fazer meu primeiro brinquedo.”

Outro.

“Consegui atravessar a floresta sozinho.”

Lili pegou um.

“Hoje fiz uma amiga.”

Outro.

“Errei sete vezes. Na oitava funcionou.”

Outro.

“Vi a Vila inteira lá de cima.”

Outro.

“Foi meu primeiro Natal aqui.”

Havia dezenas.

Talvez centenas.

Nenhum dizia quem tinha começado aquilo.

Nenhum explicava por que aquele lugar existia.

Apenas pequenas lembranças.

Momentos que alguém, em algum tempo, tinha decidido não esquecer.

Lili ficou alguns segundos olhando para a caixa.

— Esse é o segredo?

Noah olhou para as paredes.

— Acho que sim.

— Eu achei que teria um tesouro.

— Tem.

Lili olhou para ele.

— Você vai falar que as lembranças são o tesouro?

Noah fechou a boca.

Lili começou a rir.

— Você ia falar!

— Não ia.

— Ia!

— Talvez.

No fundo da caixa havia alguns pedaços de madeira ainda vazios.

Lili pegou um.

— Vou escrever.

Noah segurou sua mão.

— Espera.

— O quê?

— A gente não sabe se pode.

Lili olhou novamente para as paredes.

— Todo mundo escreveu.

— Não sabemos quem.

— Então pergunta.

— Para quem?

Lili abriu os braços.

— Para alguém que saiba.

Noah ficou olhando para o pedaço de madeira.

Era tentador.

Muito.

Tinham descoberto o lugar.

Seguido as marcas.

Chegado até ali.

Parecia quase natural deixar seus nomes.

Mas ele colocou o pedaço de volta.

— Não.

Lili franziu a testa.

— Não?

— Primeiro vamos descobrir o que é isso.

— E depois?

— Se puder, a gente volta.

Lili pensou.

Guardou o pedaço também.

— Tá.

Então pegou outro.

— Lili.

— Eu só estava vendo.

— Guarda.

— Já guardei.

Na volta, Noah não parava de pensar no lugar.

Quem tinha feito a primeira estrela?

Há quanto tempo?

Por que as marcas estavam escondidas?

Quem eram aquelas pessoas?

Por que ninguém tinha contado?

Quando chegaram à Vila, encontraram um elfo bem mais velho trabalhando próximo a um dos caminhos.

Noah descreveu o símbolo.

O elfo parou o que estava fazendo.

— Onde vocês viram isso?

Noah percebeu imediatamente que ele conhecia.

— Nas montanhas.

— Vocês seguiram?

Lili respondeu antes:

— Todas.

O elfo olhou para os dois.

Por um momento, Noah achou que receberiam uma bronca.

Mas ele apenas sorriu.

— Então encontraram.

— O que é aquele lugar? — perguntou Noah.

O elfo olhou para as montanhas.

— Um lugar para lembrar.

— Quem fez?

— Muita gente.

— Quem começou?

O elfo pensou.

— Não sei.

Noah estranhou.

— Ninguém sabe?

— Talvez alguém saiba. Eu não.

Lili perguntou:

— Por que é segredo?

O elfo sorriu.

— Porque ninguém é levado até lá.

Noah esperou.

— Quem encontra... encontra.

— Podemos escrever? — perguntou Lili.

O elfo olhou para ela.

— Vocês abriram a caixa?

Noah ficou preocupado.

— Abrimos.

— Leram?

— Alguns.

— Mexeram em alguma coisa?

— Não.

O elfo assentiu.

— Então podem.

Lili sorriu imediatamente.

— Vamos voltar!

— Hoje não — disse Noah.

— Amanhã.

— Talvez.

— De manhã.

— Lili.

— Depois do café.

O elfo começou a rir.

No dia seguinte, voltaram.

Dessa vez, Noah não precisou procurar as estrelas por muito tempo.

Já sabia onde estavam.

Lili também.

Embora tenha parado duas vezes para olhar coisas que não tinham absolutamente nada a ver com o caminho.

Quando chegaram à fenda, retiraram dois pedaços de madeira da caixa.

Noah pensou bastante antes de escrever.

Lili não.

Ela terminou primeiro.

— O que você colocou?

Lili escondeu.

— É meu.

— Todo mundo vai poder ler.

— Todo mundo que encontrar.

Noah escreveu o dele.

Os dois colocaram os pedaços dentro da caixa.

Lili foi até a saída.

Noah ainda ficou alguns segundos olhando para todas aquelas marcas.

Antes de sair, percebeu uma coisa.

As estrelas não estavam ali para esconder completamente o lugar.

Também não estavam ali para mostrar onde ele ficava.

Elas faziam outra coisa.

Faziam alguém querer descobrir.

No caminho de volta, Lili perguntou:

— Você vai contar para todo mundo?

Noah demorou para responder.

— Não.

— Por quê?

— Porque aí ninguém mais encontra.

Lili concordou.

Andaram mais um pouco.

— Mas se alguém perguntar?

Noah pensou.

— A gente pode dizer que existe.

— E onde?

— Isso não.

Lili sorriu.

— Então agora a gente sabe um segredo.

— Sabe.

Ela ficou em silêncio por aproximadamente cinco segundos.

— Eu sou muito ruim com segredo.

Noah parou.

— Lili.

— Estou avisando.

— Você acabou de prometer!

— Eu não prometi.

— LILI!

Ela saiu correndo pela trilha.

Noah correu atrás.

— VOLTA AQUI!

Os dois desapareceram entre as árvores.

Atrás deles, quase escondida pela neve, uma pequena estrela permanecia gravada numa pedra.

Cinco pontas.

Um círculo.

E três riscos.

Um deles torto.

Parecendo um bigode.